A miragem de sermos nós.
Acordo e lembro que as coisas estão onde eu as deixei,
ou estão lá porque devem ficar onde estão.
Se eu esquecesse dessa rotina
e dessas pessoas que estão comigo ao longo do dia,
eu teria uma outra vida.
Mesmo que todos tentassem me fazer lembrar quem eu sou,
da perspectiva deles,
e se eu tentasse viver essa vida sem memórias,
ainda assim, seria uma vida nova e estranha.
O que chamamos de vida são lembranças
na linha inexistente do tempo.
Eu posso esquecer, intencionalmente, quem eu sou feito de memórias,
que não fará nem uma diferença quando eu retornar para a minha vida
rotineira de obrigações, de pessoas e de lembranças.
Sou apenas memórias,
afirmo ser o que eu me lembro,
mas isso pode ser apagado por alguns momentos.
Não tem nada ali na mente que possa dizer quem sou eu de fato;
tudo que há são lembranças de obrigações, reverberações e compromissos;
a isso dou o nome de mim mesmo.
No momento em que vivemos o instante presente,
sem qualquer pensamento, percebemos
que não somos nada disso de rotina, pessoas, reverberações e compromissos.
Estamos em um vazio profundo,
em um espaço sem fim
que se expande na medida ficamos mais e mais tempo
sem existir nessa forma de lembranças.
Estamos tão longe que quanto mais nos aproximamos
mais longe ficamos de nós mesmos.
É sempre uma miragem de sermos nós.
J.Nunes