Borboletear.
O homem chega dizendo que busca novidades
no mesmo beco, na mesma porta,
no mesmo lugar de se embriagar,
e por fim, ser largado lá fora.
Em algum momento da noite,
o homem consegue colocar-se de pé e vai embora.
Não entendo como alguém pode
buscar novidades no mesmo lugar e entre pessoas
que já concretizaram em si mesmas o estado degradante.
Não quero novidades,
imprevistos e improvisos todos os dias.
É preciso criar raízes,
é certo que algumas coisas têm que ser consolidadas
e têm que criar raízes.
Nunca pensei que um dia eu falaria desse jeito,
mas é fato que há circunstâncias
que devem ser repetidas e retomadas inúmeras vezes;
devem ser repetidas igual a uma contagem perdida e retomada
quantas vezes for necessário,
repetidas igual à oração em um rosário,
repetidas igual a um mantra até dar resultados.
Repetição é retomada que consolida,
é a persistência que formula e constrói.
O homem conseguiu se levantar;
caminha segurando na parede
e não há nenhuma novidade.
Deveria estar escrito nesses muros:
quem busca novidades todos os dias
borboleteia no mesmo lugar
e cria raízes que serpenteiam
por cima desse pântano.
A busca constante por novidades satisfatórias
dentro de um mundo caótico
nos leva a ser moscas inconstantes
voando e pousando na mesma carniça.
Não é diferente o borboletear movido por novidades,
mesmo em circunstâncias corretas e nobres;
é preciso constância, persistência e repetição.
Não importa as circunstâncias;
aquele que vive borboleteando se torna o mais superficial,
o mais instável e o mais fraco dentro de qualquer situação.
O homem se levantou e saiu de cabeça tonta
e pernas bambas borboleteando pela noite
enquanto desce a rua: Lima Barreto.
JNunes