Dissonância
Nessa vila fantasma, não sei se sou eu o fantasma
que vê as pessoas, ou são as pessoas
que são fantasmas que não me veem.
Fui ao meu encontro; permaneci dentro de mim
porque fui para as multidões me procurar
e eu não estava lá; não encontrei consonância
entre mim e o espaço externo.
Fui parar aqui nesse canto escuro dentro de mim
porque andei por muitos lugares no mundo,
e não encontrei um território que me acolhesse com minha bagagem,
por isso, fiquei no mundo sempre de passagem.
Não pretendia ir ao meu encontro,
não desse modo, com essa tristeza
por não estar projetado no mundo.
Eu pretendia existir aqui dentro
e projetar o que sou no mundo
e assim existir, reverberando em consonância
com o que sou e crio por dentro,
semelhante a uma pedra
que projeta o brilho que ela é.
Fui ao meu encontro para me encontrar,
mas descobri que somos de dentro para fora
e que temos que projetar nossa luz
ou nossa escuridão no mundo.
Se não temos onde projetar nossa imagem,
somos escuridão que perpassa todas as coisas
e se perde na imensidão de não ser imagem
que se confirma na projeção.
Nessa vila fantasma, não sei se sou eu o fantasma
que vê as pessoas, ou são as pessoas que são fantasmas que não me veem?
Fui ao meu encontro porque não encontrei consonância com o mundo,
porém, quando não estamos projetados em algum lugar,
somos imagem que dispersa, diluí,
e dentro ficam as trevas que não busquei.
J.Nunes